Aprendi isso trabalhando com internação psiquiátrica

Depois de 4 anos trabalhando como psicóloga e posteriormente como coordenadora de uma equipe num hospital psiquiátrico, considero isso um princípio...

Yanne Hadad CRP 12/22911

3/14/20262 min read

A internação é para o paciente, eles dizem...

De um lado, alguém em colapso, muitas vezes sem reconhecer ou com medo desse tipo de ajuda.
Do outro, uma família atravessada por culpa, raiva, medo, exaustão… tentando bancar uma decisão que dói.

E, no meio disso, profissionais especializados e PÁSMEN, que também são afetados.
Porque não existe cuidado em crise que não mobilize quem está envolvido.

É uma experiência ambivalente para todo mundo.
E a verdade é crua: ninguém passa por isso ileso.

Tem quem sinta alívio e culpa logo depois.
Tem quem sinta raiva e amor na mesma proporção.
Tem quem ache que “agora vai”… e ao mesmo tempo morre de medo do que vem depois.

Nada disso é incoerente.
É o que acontece quando uma situação ultrapassa o limite do que dava pra suportar.

Por isso, o cuidado não pode ficar restrito ao paciente.

Quando a internação vira só uma tentativa de “resolver” o outro, o risco é sair de lá com tudo aparentemente mais calmo, mas a estrutura por baixo é a mesma.

E é aí que muita coisa se repete.

O ponto de virada começa quando o cuidado se amplia.

Quando a família começa a sair da lógica de girar só em torno do "problema".
Quando os profissionais se sustentam em um cuidado consistente (e não só emergencial).
Quando o paciente é considerado além dos sintomas críticos.

A chance de mudança real aumenta.

Pense como um tripé: família, rede de apoio e tratamento.

Se um desses lados falha, tudo fica instável.
E a internação vira só um apagar de incêndio.

Mas quando esse tripé se sustenta, a lógica muda.

Não é mais só conter o fogo.
É usar o que aconteceu como ponto de reconstrução.

Depois do incêndio, não basta apagar fogo, isso e limpar as cinzas não garante um bom lugar pra voltar a viver. É necessário reconstruir a casa entendo a CAUSA do incêndio. Revisar as bases, rede elétrica e cuidados … em busca de uma prevenção para que não desmorone do mesmo jeito de novo.

Nada volta a ser como antes.

E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de aceitar.

Mas também abre um outro caminho, que é
o de construir algo que, mesmo depois de tudo, pode ser mais sólido do que era antes.

Yanne Hadad CRP 12/ 22911